A preguiça de fazer pra amanhã que deixa tudo pra ontem

Me conta: o que você deveria estar fazendo enquanto lê esse texto? Terminar um relatório? Fim do mês tá aí, tem que mensurar os resultados, né? Ou é ligar pra sua operadora pra cobrar daquela fatura que veio o dobro do preço? Deixou de fazer um texto pra pós e vai acabar fazendo de última hora no ônibus, né? Tá, tudo bem, eu também devia estar fazendo coisas. É que escrever esse texto também faz parte das coisas que eu preciso fazer. Mas ele também tá atrasado (aproveito a deixa pra pedir desculpas para o editor).

Acontece que a gente tem o péssimo hábito da procrastinação. E eu acho que piorou horrores desde que nomeamos como pro-cras-ti-na-ção. Sempre foi só preguiça. Era preguiça e coisa em cima de coisa deixada pra depois. Porque é pra amanhã, dá tempo. Porque o prazo é flexível. Porque saiu mais um episódio da série nova da Netflix. Bom, não. Acho que é só preguiça, mesmo. E a gente usa essa palavra bonita – procrastinação – pra juntar nossa preguiça com a de outras muitas outras pessoas que também deixam suas responsabilidades pra depois e, daí, nomeiam-se todos como Procastinadores™.

Como se fosse bonito. Como se fosse poético. Como se fosse legal. Gente, não é. Legal é alguém contar com você e ter o que precisa entregue no prazo. Legal é poder confiar na sua palavra. Legal é ver série de boa, porque não tem nada pendente pra fazer. Legal é terminar uns dias antes e ter um respiro pra revisar antes de entregar a versão final.

Sabe, a gente tem um péssimo hábito de deixar pra depois o que tem que ser feito agora. No trabalho, na faculdade, nas relações. A gente espera estourar pra recolher os escombros sendo que tinha tempo de sobra de desarmar a bomba. Não tem que esperar a decepção bater e ter a DR. Não tem que esperar chegar o e-mail cobrando. Não tem que esperar abaixar 0,5 do valor da atividade. Tem que fazer na hora que tem que fazer, tem que ter senso de responsabilidade, sabe? É uma merda contar com alguém e a pessoa simplesmente ter preguiça de fazer alguma coisa.

Ver série e ficar se entupindo de carboidrato e gordura trans é uma delícia, mas fazer isso sem estragar a produtividade de alguém é mais gostoso ainda.

O pior é que é ruim pra todo mundo. Quem não tem o que precisa no prazo, com certeza, se ferra tentando se virar nos 30 pra arranjar outra pessoa que o faça em tempo-recorde (olha uma terceira pessoa se ferrando nessa história de dois porque você ficou vendo Sense8) ou fazendo ela mesma – o que não é a ideia, porque, se fosse, teria sido feito desde o primeiro momento. Aí também tem o lado horrível de ser a pessoa que não faz quando deveria ser feito e precisar fazer de última hora, pra ontem, à toque de caixa, correndo, sem qualidade, sem empenho e sem dedicação. Porque você é preguiçoso.

Procrastinador é um nome bonito, mas isso é só preguiça, mesmo.

Isso podia ter sido feito semana passada, mas você tava ocupadíssimo tomando uma cerveja a mais do que deveria deixando o seu PPT que era pra ontem completamente impraticável.

Seu relatório podia estar pronto e sendo revisado, mas o arquivo do Word ficou aberto em vão enquanto você rolava o feed do Facebook e parava de quando em quando pra ativar o áudio de algum vídeo de velhinhos sendo engraçadinhos um com o outro.

Esse trabalho da faculdade podia estar diagramado, mas você resolveu abrir alguma página nova de meme.

A vida precisa de momentos de pausa, mas a gente precisa aprender a arcar com as responsabilidades daquilo o que se propõe a fazer e realmente tentar. É de uma infantilidade sem tamanho precisar justificar cada uma das tarefas, porque nunca estão no prazo – e, quando estão, estão abaixo da qualidade esperada porque foram feitas de última hora.

A gente precisa aprender a praticar o “MERAKI”: colocar tudo o que a gente é em tudo o que a gente faz.

E a gente é inteiro, não é meia boca. A gente não é pra ontem. A gente tem que ser melhor, por escolha. E tem que escolher agora.

Escrito por Gi Marques

Sou a poesia da contradição com incontinência verbal contando histórias que vivi e inventei (qual é qual já não posso te contar)