"Garota, Interrompida", quando a loucura é normalizada

“Garota, Interrompida”, quando a loucura é normalizada

Todo adolescente é rebelde, infeliz, mal-humorado e reclamão. A dúvida bate quando isso não passa depois da fase sabe-tudo dos dezesseis. A preocupação começa com os lapsos de memórias e os momentos de desespero interior cada vez mais comuns.

Não querer – ou melhor, não conseguir – encarar a realidade é razão pra ser trancafiada dentro de um hospital psiquiátrico? Não. Mas não conseguir encará-la e se prender dentro de si, sim. Susanna Kaysen descreve, em “Garota, Interrompida”, sua experiência de passar um ano e meio em um hospital psiquiátrico, depois de uma tentativa de suicídio.

Ninguém sabe muito bem como lidar com a ideia da loucura. Nem a própria, nem a dos outros: e talvez seja bem aí que a autora tenha acertado na mão.

Ela trata dos problemas com a naturalidade de quem simplesmente narra fatos. Boa parte do livro se passa sem que saibamos, com muita certeza, o que acontece dentro dela – o enfoque é na rotina hospitalar, na loucura alheia. A dela, mantém pra si.

Aos poucos, a medida que o livro vai avançando, tive a impressão de que ela era a mais sã daquele lugar. Pensei: “Susanna, minha querida, perto dessas moças cê tá é ÓTIMA!”. Cinco páginas depois ela jogou na minha cara o que é ter depressão: você se afunda sozinho, numa imensidão escura, escura, escura. E a luz vai baixando bem devagarzinho, pra que ninguém perceba.

A gente não nota quando vive, só quando lê ou analisa de fora. (Alguém lembra de The Bell Jar, da Sylvia Plath?)

As amigas da Susanna dentro do hospital são quase engraçadas. Lisa, a sociopata. Georgina, a que tem namorado. Daisy, a que não dura lá dentro. A que gosta de frango. A que grita. A que precisa ir pra solitária.

São nomes chegando, ficando no quadro e sumindo no dia seguinte. Só não podemos nos certificar de que elas vão embora pra casa ou se vão embora da vida. A dúvida realmente existe.

O livro é autobiográfico, mas essa sensação é inexistente. Percebe-se que é uma não-ficção só por causa do nome da personagem principal. É tão bem escrito que parece uma história contada ou o roteiro de cinema que se tornou.

No fim do relato, Susanna nos diz que, mesmo antes de ir pro hospital psiquiátrico, sempre quis ser escritora e diziam que este era o fim de todos os adolescentes rebeldes que não queriam assumir suas vidas: optavam por ficar parados e escrever sobre seus problemas.

A dúvida que fica é: isso é ruim?

"Garota, Interrompida", a loucura normalizada

Média de preço do livro: R$ 25,00
Autora: Susanna Kaysen
Editora:
Gente
Formato: Brochura
Número de Páginas: 192
Ano da edição mais recente: 2013

 

GAROTA, INTERROMPIDA – FILME

A história virou filme em 1999, protagonizado por Winona Ryder e Angelina Jolie, tendo no elenco nomes como Brittany Murphy e Jared Leto.

SINOPSE: Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de “Ordem Incerta de Personalidade” – uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleto de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga.

Escrito por Gi Marques

Sou a poesia da contradição com incontinência verbal contando histórias que vivi e inventei (qual é qual já não posso te contar)

  • Emílio Dario

    Eu assisti esse filme quando era adolescente, classificação indicativa: 14 anos (?? isso simplesmente não pode estar certo, esse filme é extremamente pesado para adolescentes, mostra o suicídio, depressão e o consumo desenfreado, compulsivo e obrigatório de remédios). Podiam passar qualquer outro filme como “o Corvo”. Mas não, as professoras de redação passam essas porcarias e “o caçador de pipas” para ler, pra falar de estupro também, só podem ser doentes e estar passando por crise de meia idade. Então fica a dica, marcar os adolescentes (que são seres humanos normais em uma fase sensível de sua vida) com coisas boas e não com coisas de gente doente.