O sorriso dela é o remédio mais eficiente contra o meu esquecimento

Tenho a memória curta. Me esqueço de compromissos, de promessas, de avisos e sobreavisos. Não me lembro o que comi no almoço de ontem e nem do texto que escrevi semana passada. Guardo rostos, esqueço nomes. Sinto dificuldade em contar histórias com riqueza de detalhes porque os pormenores se perdem em meio ao labirinto do tempo. Sonho enquanto durmo, mas acordo sem as lembranças – boas ou ruins – da noite de sono.

Mas existem coisas inesquecíveis pra mim – e parece que ELA está na maioria dessas coisas. Aliás, eu deveria cobrar pelo espaço que usa da minha combalida memória. Se bem que aquele sorriso deve ser o mais eficiente remédio contra o esquecimento. Consigo recordar do primeiro dia que a vi, há mais de cinco anos.

Desde então, foram vários cafés, abraços, viagens de ônibus e metrô. Conversas. Desabafos. Divergências. E cinema, muito cinema. Me esqueço da história dos filmes que assisti no mês passado, mas não me esqueço dos filmes que vimos juntos. Lembro que refrigerante é proibido, mas a pipoca, com bastante manteiga, é indispensável. Se vier com aquele reforço no sabor, então, melhor ainda. O doce só é liberado em determinadas épocas do ano.

Sei que ela tem tantos sonhos. Alguns já foram realizados, outros estão prestes a ser e os que parecem mais distantes ainda serão. Vai dar tudo certo pra ela. Sempre dá.

A única lembrança que mais me dói é a de que eu faço parte de uma pequena parte da vida dela. Logo, a memória será a minha única aliada na lembrança daquele sorriso. Ah, aquele sorriso. Vou precisar me esforçar pra recordar do cheiro do seu cabelo quando está deitada no meu ombro. É incrível como a gente se entende até na carícia dos dedos, mas não demora muito pra isso ficar pra trás. Infelizmente.

Ela tem sonhos. Eu também tenho. Um deles é construir uma vida ao lado dela. Acho que não vai dar. O amor é um hóspede meio inconveniente porque vai entrando sem pedir licença. Deixei que se instalasse, mas agora eu preciso que saia e volte outra hora. Trazendo outro alguém. Essa visita inesperada já me trouxe algum sofrimento.

É que o amor por ela encontrou lugar em mim, mas o amor por mim virou alguma outra coisa dentro dela.

Sabe, a minha fraca memória já foi derrotada pelo meu forte coração algumas vezes. Tento esquecer aquele sorriso que no primeiro dia me encantou. Tento fingir que não me importo com tamanha humanidade numa só mulher. Tento achar que o cinema ainda é o mesmo sem ela. Tento parecer forte mesmo já sem forças pra dizer de novo “EU TE AMO”.

Tento sempre me lembrar de te esquecer. Mas não consigo. Tenho a memória curta.

Escrito por Vinicius Andrade

Jornalista amante da escrita. Criador do Crônicas do Agora. Interessado em boas conversas, textos e histórias.