Outros jeitos de usar a boca | Rupi Kaur, a mulher e a literatura

Outros jeitos de usar a boca | Rupi Kaur, a mulher e a literatura

No mês passado, aconteceu um bate-papo no Espaço Cult na Vila Madalena, em São Paulo, sobre o livro Outros jeitos de usar a boca, da Rupi Kaur.

aqui está a jornada de
sobrevivência pela poesia
aqui está o sangue suor lágrimas
de vinte e um anos
aqui está o meu coração
em suas mãos
aqui está
o amor
a dor
a ruptura
a cura
 

O poema de orelha da edição do livro, traduzido do inglês pela Ana Guadalupe e publicado pela Editora Planeta, nos dá a sensação de porta aberta para tudo o que a autora precisava contar.

Em caixa baixa, como num diário, usando suas gírias e seus vícios de linguagem, Rupi faz cada mulher que lê se encontrar em linhas que jamais imaginavam se encontrar.

E digo mulher, no feminino, sendo específica, porque ela fala de situações que nós, mulheres, meninas, garotas, minas passamos. De quando a gente nem percebe, mas deixa de ser o nosso Nome pra ser a Mina de Alguém. De como a gente não lembra, mas tem no pai a figura mais traumática do machismo crônico. Eu tenho sorte por não ter tido essa experiência, mas li nas letras da Rupi o pai que assombrava a vida das minhas amigas mais queridas. Aquelas pelas quais eu não podia fazer nada verdadeiramente efetivo.

toda vez que você
diz para sua filha
que grita com ela
por amor
você a ensina a confundir
raiva com carinho
o que parece uma boa ideia
até que ela cresce
confiando em homens violentos
porque eles são tão parecidos
com você
 

Por outro lado, Rupi fala muito das mulheres vívidas. Aquelas intensas. Que não tem mais ou menos feliz ou mais ou menos tristes. Que passam pela vida numa montanha russa infinda entre a felicidade taquicárdica e a tristeza mais profunda que tem na vida.

eu não sei o que é viver uma vida equilibrada
quando fico triste
eu não choro eu derramo
quando fico feliz
eu não sorrio eu brilho
quando fico com raiva
eu não grito eu ardo
a vantagem de sentir os extremos é que
quando eu amo eu dou asas
mas isso talvez não seja
uma coisa tão boa porque
eles sempre vão embora
e você precisa ver
quando quebram meu coração
eu não sofro
eu estilhaço
 

Outros jeitos de usar a boca disseca a vida de uma mulher nova que viveu muito como muitas das mulheres novas da nossa geração. O livro de Rupi Kaur fala de preconceitos, abusos, mágoas, raivas, amores, ardores e de dor em cada letrinha. Não chega a ser dramático, mas o toque de Ana Guadalupe na tradução auxilia nisso: ela manteve a essência de Rupi enquanto mantinha sua própria versão dos fatos intacta.

Uma excelente coletânea poética para se deixar do lado direito da cabeceira e do lado esquerdo do peito.

 

Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur

Escrito por Gi Marques

Sou a poesia da contradição com incontinência verbal contando histórias que vivi e inventei (qual é qual já não posso te contar)