Pitanga medicinal para as borboletas no estômago

CRÔNICAS | Pitanga medicinal para as borboletas no estômago

Um dia desses acordei de madrugada diversas vezes. Comecei pensando que eram sonhos – melhor dizendo, pesadelos – e tentei lembrar-me deles para ver se os controlava da próxima vez. Tentava e não conseguia, eram imagens turvas, borrões. Com sua persistência, passei a me concentrar mais e mais para imaginá-los. Entretanto a minha descoberta não foi das melhores, percebi que tudo não passava de um embrulho no estômago que não tinha fim. Preocupei-me com este estado sintomático e decidi fazer algo a respeito.

Lá estava eu, sentado numa sala de espera, ansioso para ser atendido e finalmente curar aquela minha dor constante no estômago que me mantinha acordado há dias. Logo o doutor me chamou para o consultório número 3. Entrei e sentei-me na cadeira mais próxima da porta, já estava esperando aquelas perguntas de praxe de todo médico. Mas algo de diferente estava acontecendo, pois, à medida que o doutor me fazia perguntas, fui percebendo que ele estava insinuando algo. “Não! Eu me recuso a ouvir tantas asneiras quanto às desse médico louco.” Fui embora daquela sala de consulta e me determinei que só descansaria quando achasse alguém que dissesse o que realmente estava ocorrendo comigo e, em seguida, me curasse.

Foram noites e mais noites em claro, consultas e mais consultas para sempre ouvir as mesmas acusações descabidas daqueles charlatões. “O que estão ensinando nas universidades de medicina desse país?” – me perguntava. Até que, um dia certo dia, ela foi embora. Exatamente assim, de repente e não mais que de repente. Passaram-se duas longas semanas sem que aquele sentimento me afligisse outra vez, mas como tudo na vida, ela voltou. Todas aquelas suposições ditas pelos médicos estavam a me incomodar. E foi nesse momento que percebi que eles estavam todos certos. Nesse dia não foi só a minha “dor de estômago” que voltou, mas ELA também voltou. Aquela garota que me encanta há dois anos, ELA acabara de retornar de uma viagem.

Isso mesmo, eu não estava sofrendo de nenhuma enfermidade, tudo o que sentia eram borboletas no estômago – coisa que pensei que nunca sentiria. Me vi desestabilizado por esse abalo sísmico. Não é mais possível andar tranquilamente sem o medo de vê-la e desmoronar. Bastava um sorriso largo e um singelo “Olá!” para amolecer todo o meu corpo. Não mais me incomodava aquele arrepio quando a via, o real incômodo era estar tão perto e não poder conhecê-la melhor. O que doía mesmo era não saber mais o que falar quando o assunto morria durante nossos breves encontros no corredor. Meu único remédio seria enfrentar o medo e tentar, só assim o mar em meu peito poderia se tornar calmaria outra vez. 

Lá estava eu, parado em frente à sua porta me perguntando pela última vez “Falo ou não falo?” e então decidi falar. Bati na porta e ela abriu – com aquele sorriso lindo acompanhado das maçãs do rosto mais rosadas e fofas que já vi – e então me pus em posição de guerra, preparado para ouvir um não. Perguntei-lhe se aceitaria tomar um sorvete comigo e tive a seguinte resposta: “Claro, estava pensando agora mesmo em te convidar. Você por acaso já tomou sorvete de pitanga?” disse aquela radiante menina ao dar-me os braços enquanto andávamos a caminho da felicidade, quer dizer, da sorveteria.

 

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Escrito por Felipe Aguiar

Estudante de jornalismo curioso e apaixonado por história. Cinéfilo de carteirinha que ama o universo da sétima arte e deseja sempre estar ainda mais imerso nesse mundo.