Quarta-feira de cinzas também tem cor (um ode aos clichês)

Entre o Tô de Bowie, o Baixo Augusta, o Me Fode que Eu Sou Produção e o Bloco dos Punks, um consenso: nossa carne é de carnaval. E te afirmo, palavra de glitter e serpentina, a carne da galera do Bloco do Tô em Casa também é de carnaval. Porque carnaval é a festa da carne e cada um tem direito de ser carne como bem entender.

A verdade é que chega um momento que a gente precisa extravasar e fazer isso da forma que quiser sem ser julgado. Eu sou da festa e, sempre que possível, me enfio num biquíni com shorts e entro no metrô com 7 kg de glitter pelo corpo repetindo todas as marchinhas que puder no trajeto Tamanduateí-Consolação.

Esse ano fui do bloco do “vou ficar com a minha família, economizar, comer e descansar porque meus excessos danificaram meu fígado e meu estômago antes do carnaval chegar”, mas nessa quarta-feira de cinzas ainda tem muita coisa carnavalesca pra rolar. Hoje é aquele dia em que a gente senta pra almoçar antes do expediente oficial começar e só consegue pensar que “agora o ano começou” e não dá mais tempo de empurrar nada com a barriga, porque “depois do carnaval” é daqui 45 minutos e você tá a um prato de picadinho com guaraná num copo com gelo e laranja (porque a gente fica mais brasileiro no carnaval) dessa virada.

É depois de muita Catuaba, serpentina, cerveja meio quente de qualidade duvidosa, banheiro químico e “eu não espero o carnaval pra ser vadia, eu sou todo dia, eu sou todo dia” que a gente consegue colocar o corpo no lugar e finalmente começar a viver.

Quarta de carnaval vem pra gente falar que a hora é agora e nem tem jeito de deixar pra depois.

Segunda e terça são dias pra gente abrir o braço por padrão e deixar o Carnaval cumprir seu papel de levar nossa boca pra bocas que a gente nem queria beijar tanto assim, nosso corpo pra espaços muito menores do que é saudável que eles habitem e nossa mente a pensar que pode sim ser uma boa ideia misturar aquele sucão suspeito com Cristal quente (4 por R$10) e Catuaba – e nem é a Selvagem.

Essa quarta-feira é de alegria pelos excessos merecidos de um povo que precisa se exceder pra se resumir em si. E agora a gente volta pra vida engravatando quem precisa de gravata e paletó, enfiando numa saia lápis quem precisa escrever com as pernas e permitindo piadas infames pra escritores engraçadinhos.

O Carnaval é bom pra quem fica em casa, pra quem vai pro bloco, pra quem vai pra praia ou pra quem simplesmente vê o sorriso de quem faz tudo isso cumprindo seu trabalho.

A gente segue a vida e, nessa quarta-feira de cinzas, o desejo geral é que nossa carne de carnaval não tenha levado nossa mente alcoolizada a esquecer o rosto daquele jovenzinho que começou estágio no trampo agora e acabou de entrar no elevador ainda com glitter no rosto e ai meu deus o que foi que eeeeuuuuuu fiiiiizzzzz.

Escrito por Gi Marques

Sou a poesia da contradição com incontinência verbal contando histórias que vivi e inventei (qual é qual já não posso te contar)