Quer saber o que realmente importa pra você? Me conte suas resoluções de ano novo


A vida não é a festa que havíamos imaginado, mas, já que estamos aqui, dancemos!
 

A gente sempre quebra a cabeça pra fazer lista de resolução de ano novo. Tá. “Sempre” é muito tempo, já que eu realmente não devo ter uma lista dessas desde 2012, mas o hábito de parar pra ponderar o que virá no novo ano é recorrente – isso não dá pra negar. Na noite de Natal, joguei na roda da família: o que você tem de melhor de recordação do ano que fica? Meu irmão, insatisfeito com as quase duas horas de falação, complementou: o que você espera do novo ano?

As respostas foram as mais variadas. A minha, pra começo de conversa, um livro pelo menos finalizado. De meia dúzia, um novo emprego. Carro, mudar de casa, ganhar um pouco mais, trabalhar um pouco menos, perder 10kg, voltar a caminhar, comer direito, parar de tomar refrigerante…  O de sempre. Parece que sempre que a gente tem que desejar alguma coisa, depois de muito ponderar, transformamos os desejos mais profundos do nosso âmago em:

1) Perder peso;

2) Ganhar mais dinheiro;

3) Parar de gastar tempo com coisas que nos divertem pra trabalhar mais / estudar mais / se dedicar à algo pra melhorar profissionalmente (aqui entram variações de “parar de ir pro bar de segunda-feira”, “parar de jogar futebol de quarta e ir pro inglês” etc).

Por quê? Por que a gente sempre faz a varredura da nossa vida e acha que a coisa mais importante do mundo é perder alguns quilinhos que aposto um rim que não tão te fazendo mal algum? Por que depois de tanta ponderação a gente chega à conclusão de que não precisa gastar menos com coisa desnecessária, mas ganhar mais dinheiro pra gastar com mais coisa desnecessária? O que nos leva a crer que é realmente importante abrir mão do que nos faz bem em prol de uma atividade que única e somente vai te beneficiar num pedaço de papel que você entrega no RH de uma empresa que você talvez nem queira trabalhar tanto assim?

O que você espera do ano que ainda nem chegou tem tudo a ver com o que você considera prioridade. E essa é a hora perfeita pra rever as suas. 

Em primeiro lugar, isso de forma alguma é um texto hedonista em prol do prazer sem responsabilidade. Isso é loucura e só funciona na poesia. A vida real exige certa disciplina e organização pra ir pra frente – se não sua, dos outros, que muito provavelmente são prejudicados pela ausência da sua. Enfim.

Seguimos.

Pondere por alguns minutinhos e me diga o que realmente faz diferença na sua vida. Assim, de bate-pronto. O que te influencia pro bem e te deixa feliz? O que você faria se hoje fosse o último dia da sua vida e você fosse aproveitá-lo da melhor forma possível? Eu aposto que iniciar uma dieta não entra nessa lista. Trabalhar o dia todo, menos ainda.

Por que é isso que você espera pra um ano inteiro, então? Qual é o real problema em estar alguns quilinhos acima do normal? Você precisa mesmo ganhar mais ou só gastar menos? Tem algum problema de verdade em matar algumas aulas da faculdade pra ir pro bar?

Vejo que quanto mais tempo a gente passa pensando em como tá fazendo as coisas erradas, mais tempo a gente perde tentando remendar coisas que não são crimes, são só coisas que nos fazem bem e os outros nos fazem encarar com um peso que não lhes cabe – nem nas coisas, nem em nós.

A gente não tem que ter toda essa costa larga a vida toda. A vida é muito menos complicada do que imaginamos – tudo tem a ver com o ponto de vista. Na real, o que importa mesmo não é o tamanho da sacada do apartamento que você mora, menos ainda quantos “g” mudo têm no nome do prato gourmet que você tá jantando hoje. Tô pra te falar que nem o número da calça que você veste importa! O que importa mesmo é se quem frequenta esse teu apê tem amor no peito, se o prato que você tá comendo foi feito por mãos cuidadosas e se a calça que você tá usando te deixa confortável. E só!

Levam a gente a acreditar que a vida é uma porrada atrás da outra e que a gente precisa abdicar dos bons momentos pra amaciar e ser alguém. Isso é ilusão. Quer dizer, a vida é mesmo uma porrada atrás da outra e, se você não ficar esperto, essa porrada vem logo na sua cara. Mas os bons momentos são as únicas coisas capazes de nos fazer viver de verdade. É porque vivemos bons momentos que conseguimos aguentar o tranco. É porque temos bons amigos que suportamos as pessoas que nos fazem mal. É porque existe cerveja gelada que aguentamos cafés fracos e sem açúcar. É porque existe a boa literatura que suportamos os e-mails quilométricos do trabalho que nada têm a dizer.

A verdade é que quando a gente pára pra pensar em resolução de ano novo, a gente nunca pensa mesmo no que nos fazem bem. A gente pensa no que falam que a gente tem que pensar. Perder peso, conseguir um emprego novo, trocar de carro, parar de ir pro bar… Se isso te fizer bem, beleza, vá em frente! Academia em promoção é o que não falta e o departamento de RH das empresas ficaria feliz de receber currículos de pessoas realmente interessadas nos propósitos da organização. Mas só faça isso se for o que pulsa teu peito, porque, do contrário, você tá só gastando sua energia onde não precisa.

Porque pensei nisso tudo, porque a vida têm pulsado pra mim e porque todo mundo fala demais e a dinâmica lá de casa acabou durando muito mais do que deveria (primeiro Natal que ninguém dormiu antes de meia noite), eu pedi a palavra novamente e acrescentei algo ao meu pedido. Eu quero muito meu livro finalizado, muito, mas, sobretudo, em 2017, quero ser escandalosamente feliz.

Como vou fazer isso, descubro no caminho.

 

Vamo?

Escrito por Gi Marques

Sou a poesia da contradição com incontinência verbal contando histórias que vivi e inventei (qual é qual já não posso te contar)